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A Sala de Não Estar

um blog por Afonso Castro

A Sala de Não Estar

um blog por Afonso Castro

24/08/18

Ode Ao Que Tu Quiseres

Até aceito comer, beber,
ver os dias definhar
e guardo um riso amolgado
pronto para quando a tua piada magra
se desfizer, inevitavelmente, no centro da sala.
(Ninguém existe fora disto.)
Algo mais ambicioso é te atirado para as patas,
por mim claro, por quem é que haveria de ser,
até porque nada do que nos têm ensinado ao jantar serve.

 

Tens a casa ao pé do rio,
tens as velhas ruas sem pressa do costume,
muros de musgo,
pequenos portões de ferro carcomidos pela ferrugem
à entrada dos prédios,
tens o silêncio, ou melhor,
tens os compassos de espera
em que a ferrugem avançou,
enquanto, talvez, deixavas um vizinho passar.

 

Bom dia.

 

E então o rio galga em lentidão própria,
a sua língua azul ou cinzenta
reinventa a gente que partiu ontem

ou há tantos anos,

objetos desprovidos da sua cor,

corpos que afundam, quero dizer,
és só tu a pegar no sono.

Manto de conversas podres
debaixo da pele, debaixo do rio,
sem saberes improvisar, o ritmo quebra,
os gestos cansam-se,
eu próprio deixo de esperar por ti.
Mas se me despedir dos símbolos, sabes,
das impressões, das vaidades,
vou perder a força que trazia comigo
quando aqui cheguei pela primeira vez.
Somos só duas pessoas que não chegam,
são precisas as outras lá fora
a trabalhar por nós, a dar o mote.
São precisos os animais de estimação
a saberem de cada movimento nosso,
amargos por permanecerem calados.
Ou agradecidos.

 

Isto não vale nada, merda.

 

De resto, noções frágeis de sorte,
crucifixo largo de pinchbeck ao peito,
a condecorar o grande feito, 
a roupa antiga dada aos pobres
quando passaste de adolescente a mulherzinha.
Conceitos desfeitos mas doces
a passear pela boca,
o vocabulário cada vez mais reduzido,
tudo à base do ser e estar e gostar
e do e, e do mas, e do porquê.
Noções básicas de humanismo
sem políticas à mistura,
um não percebo disso com uma
falsa timidez e vergonha.
Um amigo de longa data
a dizer o problema
disto tudo é haver gente a mais.
Quanto a mim, só ponho em palavras
o mau uso das coisas.
Fazem-me escrever as cabeças impregnadas
e agora vocês escolhem
impregnadas de quê.
O quarto, talvez, sempre aliás,
mais as frases para decorar o aborrecimento alheio,
as fotografias sim,
tudo o resto, claro.

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